Disciplina - Sociologia

Sociologia

23/08/2012

Um Lenin sui generis

Por Gianni Carta / Carta Capital
Vladimir Lenin foi o pensador revolucionário a transformar a teoria em práxis. E assim adentrou “o terreno da realpolitik”, escreve o filósofo marxista húngaro György Lukács em Lenin: Um estudo sobre a unidade de seu pensamento, opúsculo publicado em 1924, logo após a morte do primeiro líder soviético. Nesse contexto, o líder bolchevique foi o primeiro, nas palavras do autor de Lenin, a reconhecer “o imperialismo como nova fase do capitalismo”.
Segundo Miguel Vedda, autor da apresentação deste volume e professor de Literatura Alemã e Filosofia na Universidade de Buenos Aires, “o filósofo húngaro construiu, nesta obra de juventude, uma imagem sui generis do líder bolchevique, na qual se destaca uma série de aspectos pouco condizente com a versão que logo haveria de divulgar o stalinismo, mas que já estava começando a se configurar”.
Vedda tem razão ao dizer que o livro é “brilhante e muito atual, a despeito de deficiências e elementos dogmáticos, até mesmo autoritários”.
CartaCapital: Em 1967, Lukács escreveu que o opúsculo de sua autoria sobre Lenin estava datado. No entanto, o senhor a considera uma obra atual.
Miguel Vedda: A obra de Lukács, no sentido ontológico e estético, é muito importante para compreendermos nossa época, sobretudo sob o contexto latino-americano. São reflexões cruciais sobre a vida cotidiana, a alienação e o papel do trabalho. Tudo isso é uma crítica demolidora ao stalinismo, uma contribuição muito atual.
CC: Por que o opúsculo é tão especial para os latino-americanos?
MV: Vários campos de pensamento do filósofo húngaro, abandonados na Europa, desenvolveram-se na América Latina. Há uma discussão profunda, por exemplo, a respeito do papel do trabalho. Segundo Lukács, o trabalho é um elemento fundamental para compreendermos o homem e o processo social em seu fundamento ontológico.
CC: Segundo certos críticos, Lukács era stalinista.
MV: Há estudos a defender essa tese simplesmente porque ele participou da revolução no seu país. No entanto, não conheço ninguém que o tenha estudado seriamente e ainda o chame de stalinista. E me debruço sobre a obra de Lukács faz 20 anos. Dito isso, o comunismo, não há dúvida, é um sistema antidemocrático, opressivo, um dos piores males do século XX. No período stalinista, Lukács foi um dos filósofos mais perseguidos, suas obras só eram vendidas no mercado negro. Ele esteve em campos de concentração e, finalmente, foi um dos líderes da Revolução Húngara de 1956 contra o pós-stalinismo. Isso não quer dizer que eu esteja de acordo com as posições de Lukács durante toda a sua vida. A meu ver, por vezes ele esteve equivocado. Numerosos de seus contemporâneos foram stalinistas, mas nenhum deles se tornou uma figura expressiva. Não é possível ser ao mesmo tempo um grande filósofo e stalinista.
CC: Em Lenin, Lukács não faz, porém, nenhuma crítica ao biografado…
MV: É um livro escrito na ocasião da morte de Lenin, em 1924. Lukács preferiu não aproveitar aquele momento para desenvolver certas críticas. Mas em escritos posteriores aparecem muitas análises críticas a Lenin.
CC: Lukács queria mudar o Partido Comunista.
MV: De fato, em Lenin há uma mudança, não rumo ao stalinismo, mas paradoxalmente a uma visão um pouco mais democrática da concepção do Partido Comunista. Certos setores da classe operária foram beneficiados pelo PC, e assim se formou uma burocracia partidária contra a maioria da população. Isso aconteceu na União Soviética. Grupos a integrar o Partido não representavam as massas, mas a si mesmos. O PC desgastou-se porque se burocratizou. Já nos anos 1960, Lukács dizia que para não se burocratizar era preciso manter o contato total com as massas. O PC com que ele sonhava nunca existiu na União Soviética, nem na sua Hungria natal.
CC: Atualmente, a crise dos partidos políticos é geral.
MV: O cidadão norte-americano ou o russo que vai votar de vez em quando não tem nenhuma participação real na política. O problema é esse: como convertê-los em partícipes das decisões políticas de maneira real? Para Lukács, a revolução não deve ser feita em nível de partido, mas a partir da vida cotidiana. Atualmente, não existem sólidas agremiações políticas, mas sim movimentos sociais mundo afora. O Movimento dos Sem-Terra no Brasil, o Movimento Zapatista no México, os Indignados na Europa. Eles produzem algo de novo.
CC: Como se dava a relação de Lukács com a literatura?
MV: Ao contrário da filosofia, da história, a literatura lida com a vida cotidiana, sobretudo em alguns gêneros, como o romance. Lukács dizia que autores como Balzac, Dostoievski, Tolstoi e Thomas Mann tinham a capacidade excepcional de ver os rasgos fundamentais de uma época observando as realidades do dia a dia. As teorias políticas de Balzac são muito banais, e isso é perceptível na obra dele. No entanto, esses romances são uma análise da realidade sem a mediação da teoria. De fato, ele é tão artesanal como escritor que muitas vezes, no seu próprio material, contradiz seu pensamento político. Por sua vez, Tolstoi tinha as ideias políticas de um nobre russo de sua época. Sua obra é interessante porque não reflete o pensamento da classe social dele, antes o contradiz. A classe de Tolstoi não condiciona a sua obra. A grande literatura, disse Lukács, é uma crítica e uma contradição. Essa é uma enorme crítica ao mecanicismo e ao determinismo.
CC: Lukács escreve que as bases da sociedade burguesa são “inquebrantáveis”, isto é, em momentos de sofrimento ela pensa apenas em retornar à situação “normal”. O que podemos aprender com Lukács na atual crise do capitalismo?
MV: Lukács dizia que não se pode ser nem radicalmente otimista nem radicalmente pessimista em relação à história. O marxismo não morreu durante a vigência do Estado de Bem-Estar Social, tampouco caminhamos para a emancipação social porque vivemos uma crise econômica norte-americana, europeia e global. O capitalismo tem grandes dificuldades para resolver. Não podemos nos basear em otimismos ou pessimismos conjunturais para entender o capitalismo. Para analisar um fenômeno histórico não é necessário buscar os fenômenos mais evidentes, os mais visíveis. Assim como Hegel e Marx, Lukács supunha que a análise não estava no nível do fenômeno. Ele cita Lenin ao dizer que os movimentos de importância histórica não se notam tão rapidamente. São necessários anos e anos para ser compreendidos.
Esta reportagem foi publicada no sítio Carta Capital em 11 de Abril de 2012. Todas as informações nela contidas são de responsabilidade do autor.
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